Eu
fingia que a lua me inspecionava o tempo todo, que me seguia para onde
quer que eu fosse, e que ela era um olho mágico capaz de desvendar todos
os meus segredos de mulher. Eu fingia, e sempre foi a mais pura
verdade. A lua é o olho mágico do Criador me sinalizando que nunca
estarei só, mesmo quando as nuvens ousarem manifestar o contrário. Basta
uma brecha e lá estará ela mais uma vez me espreitando, me zelando e
alinhando os meus passos e pensamentos incertos. É o olhar mágico do
Criador que se faz presente de maneira definitiva e absoluta.
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segunda-feira, 25 de agosto de 2014
quinta-feira, 31 de julho de 2014
O Caboclo de Ébano
Era um caboclo de olhos de índio, de pele macia, da cor do ébano.
Da boca voraz escapavam gemidos, do corpo exaltado consagrava o instante profano.
E eu, em seus braços, esvanecia de tanta avidez que em mim atiçava.
Da boca voraz escapavam gemidos, do corpo exaltado consagrava o instante profano.
E eu, em seus braços, esvanecia de tanta avidez que em mim atiçava.
Enquanto me invadia, eu estremecia e, então sucumbíamos, cedendo ao sim.
Ah, meu caboclo! Eu nem sequer pressentia que daquelas noites intermináveis, um de nós partiria, enquanto o outro se exilaria em algum lugar longínquo para aplacar a dor da ruptura.
Todas as noites eu me banhava no córrego, na tentativa de refrear minha avidez por tê-lo em minhas entranhas. Saia do riacho ofegante, de tanto que me debatia nas águas geladas do ribeiro. Corria para casa e me escondia debaixo dos cobertores e, assim, adormecia.
A saudade do meu caboclo tardava a passar, enquanto os dias aparentavam longos demais. Qualquer caboclo semelhante a ele fazia o meu corpo tremelicar. Ao perceber meu desacerto, chorava de rancor e desalento.
Após algumas luas compreendi que os meus dissabores estavam chegando à reta final. Não demoraria e, logo, a minha extinção sucederia. Eu estava, visivelmente, magra, quebrantada, de olhos fundos e expelia tudo que comia. A mamãe me olhava cheia de dó, enquanto eu falava de modo reprovativo e quase aos gritos: 'Tô morrendo, mãe...morrendo sem o meu caboclo que partiu.' Tal a minha surpresa foi ouvir da boca da minha mãe, que aos prantos respondeu: 'Morrendo nada, filha! Você tá prenha, meu Deus! Prenha!
E foi assim que depois de muitos dias, e muitas noites, com o vestido encurtando cada vez mais, que o meu caboclinho nasceu. Chegou com choro forte, o meu moleque, demonstrando que seria um touro, tal qual era o pai. Mamava com o mesmo anseio que o pai me amava. E eu nunca poderia imaginar que fosse possível amar alguém tanto quanto eu já amava aquele pedacinho de gente. E eu descobri que existia no mundo alguém a quem eu amava mais do que ao meu caboclo, que um dia partiu. E agora eu não necessitava mais me banhar no córrego, todas as noites. E foi lá, naquele ribeiro, que decidi batizar o meu filho. E foi lá, nas águas daquele riacho, que eu sentenciei que seria o meu funeral, numa canoa de madeira de ébano, coberta de flores do campo. E a correnteza levaria os meus restos, o barco ficaria à deriva, até que não restasse mais nada do que fui um dia.
Agora, à margem do córrego, que aplacou por tantas noites a minha sofreguidão, eu vejo a lua branca iluminando as águas e, pincelando de prata cada fio branco da minha cabeça. Por onde andará o meu caboclo? Será que ainda vive? Como resposta, meu filho, agora homem feito, se aproximou de mim, e me envolveu num terno abraço, beijou-me a fronte e pensei: 'Ele vive, sim. Vive, e se perpetuou naquele que um dia eu pari e, que me faz tão feliz.'
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