E
era assim que eu me via, olhando o outro lado da cerca, crendo que de
lá viriam todos os anjos salvadores, todos os heróis que eventualmente
estariam por chegar e, me resgatariam dessa condição desesperançosa da
qual eu me defrontava todos os dias. O outro lado era a salvação de
todos os incômodos que me tornavam detida, impedida de agir. Aqui,
estava eu, do lado de cá dessa cerca, onde o espaço
era enorme, contudo não me permitia ir de encontro a mim mesma. Eu
poderia, simplesmente, saltá-la, mas algo me indicava a chegada da
libertação a qualquer momento. E fora assim, por muitos anos, essa longa
expectativa diante de tais acontecimentos. Alguém dissera que toda
linha separa dois campos, dois polos, duas circunstâncias. E aquela
cerca era essa linha limitadora. Se aqui há desigualdades de condições,
se a minha existência favorável dependia de um salto, o que eu estaria
esperando? O que me amedrontava? Qual seria o requisito básico para
finalizar esse meu padecimento, esse desastre que era a minha
permanência do lado de cá? Um simples salto? E os anjos salvadores
que nunca chegam, os heróis que nunca me resgatam, onde estariam,
portanto, que nunca trouxeram o livramento a minha condição humana? Voltarei amanhã, farei tudo de novo, até que eu possa vencer essa
distância entre mim e a vitória que ainda hei de alcançar um dia.
